1. Introdução
A presente reflexão objectiva estudar As Abordagens Locais no Ensino da Língua Portuguesa em Angola, levando em consideração as variações linguísticas e os contextos socioculturais dos alunos, para que sirvam de desafios e possibilidades às práticas pedagógicas dos professores. A presença de múltiplas línguas e culturas nas salas de aula angolanas exige que o professor reconheça a coexistência do português com as diversas línguas nacionais: umbundu, kimbundu, kikongo, cokwe, entre outras; e desenvolva competências interculturais e estratégias pedagógicas diferenciadas. É importante que se reconheça e valorize as línguas maternas dos alunos, usando-as como ponto de partida para a aprendizagem do português. Neste sentido, o ensino da Língua Portuguesa em Angola apresenta desafios que ultrapassam a transmissão de conteúdos gramaticais e normativos.
A problemática desta reflexão está na dificuldade que os professores enfrentam para a integração das especificidades locais no ensino formal da Língua Portuguesa, muitas vezes devido à rigidez curricular, à falta de materiais didácticos contextualizados e ao predomínio de uma visão prescritivista da norma-padrão. Diante deste problema, formulamos a seguinte questão: como é que os professores podem explorar as abordagens locais para tornar o ensino da Língua Portuguesa mais significativo e inclusivo?
2. Na senda de um perfil actual do professor de português
Actualmente, tal como advoga Paro (2016), o professor é um profissional fundamental para a formação humana e social dos alunos. O professor não é apenas um transmissor de conhecimento, mas um mediador do aprendizado, que deve estimular a autonomia, a criticidade e a participação activa dos alunos no processo educativo. Em outras palavras, a postura do professor, nos dias de hoje, deverá ser fundamentalmente de um agente de mudança.
Martins (2018) adverte que neste século XXI, os nacionalismos devem dar lugar ao universalismo, os preconceitos étnicos e culturais à tolerância, à compreensão, ao pluralismo, à democracia. Para ele, o cerne do processo pedagógico deve ser constituído por uma forte relação entre o professor e o aluno. Há muito que o professor deixou de ser apenas o transmissor de conhecimentos, mas sim alguém que consegue ajudar os seus alunos a resolver problemas, por forma a tornarem-se sujeitos autónomos e interventivos, livres e democratas.
Nesta senda, inventariar um perfil do professor de língua portuguesa em nosso contexto poderá ser um elemento decisor na formação do aluno, para dar robustez ao aprendizado inclusivo e democrático, bem como fortalecer a jovem democracia angolana. Martins (2018) considera ser necessário primar pela exigência de um professor culto, com uma personalidade onde a dimensão da teoria, da praxis e da crítica coabitem em dinâmica e constante interacção. Exige-se que nos primeiros anos de ensino não seja um mero alfabetizador, mas alguém com capacidades, entre outras: 1- O saber relativo à teoria; 2- O saber-fazer relativo à praxis; 3- 0 saber-ser/saber-estar relativo à dimensão crítica.
Quanto às competências exigidas ao professor de língua portuguesa, deverão convergir nos seguintes parâmetros: i) O poder práxico-poético, que se traduz na conectização das capacidades de falar/escrever/ouvir/ler; ii) O poder teórico, que, por sua vez, remete para a capacidade de interpretar e de explicitar, formulando hipóteses, arquitectando teorias e modelos, construindo esquemas...; iii) O poder crítico, que fundamenta, justifica e confirma os produtos do poder teórico sobre a língua, estabelecendo critérios e padrões de gramaticalidade, de aceitabilidade, clarificando pressupostos, em suma, problematizando o poder teórico sobre a língua.
3. Formação de Professores
A formação inicial e contínua de professores que considere as metodologias de ensino da realidade multilingue do país é uma demanda da educação e merece uma atenção especial. Neste sentido, importa sublinhar o que Martins (2018) considera, “se a qualidade de ensino está associada à qualidade dos programas de formação (conteúdos), não deixa de ser menos importante a qualidade dos agentes formadores do processo de ensino (professores)”. É necessário conectar a qualidade dos programas à qualidade dos professores e é nisto que reside um dos grandes problemas, que se prende com o facto de a maioria dos professores enfrentar limitações de vária ordem, como a ausência de programas de formação que abordem a integração das línguas nacionais no ensino do português, o que dificulta a implementação de práticas pedagógicas eficazes e contextualizadas; e a falta de perfil adequado para desempenhar as suas funções, ou seja, em muitos casos, os professores não apresentam qualquer formação com agregação pedagógica, tampouco formação relacionada às línguas, ainda que em perspectiva não pedagógica.
Neste sentido, dever-se-ia valorizar e aplicar com maior rigidez a política educativa plasmada no Decreto Presidencial n.º 273/20, que considera a formação inicial e continuada dos professores. No domínio do ensino da Língua Portuguesa, uma das políticas assertivas é o Despacho Presidencial n.º 98/20, que combina com Decreto Presidencial n.º 205/18, que cria o Curso de Mestrado em Metodologia de Ensino da Língua Portuguesa no Ensino Secundário, cf. a alínea a, que visa, entre outras questões, capacitar os formadores de professores iniciais a lidarem com a diversidade linguística e cultural em sala de aula; com programas de formação que abordem as metodologias de ensino bilíngue ou multilíngue, bem como estratégias de inclusão das línguas nacionais no ensino do português. A adopção desta postura contribui para a promoção de uma abordagem pedagógica diferenciada e intercultural no ensino da Língua Portuguesa, que visa pelo respeito e valorização das diferentes culturas e línguas presentes em Angola.
4. Desafios Possibilidades para o professor de Língua Portuguesa
Garmadi (1983: 23-24), citado por Martins (2018), perspetiva a língua em três planos: no primeiro, a língua é vista como o reflexo do povo, a memória coletiva em que este deposita a experiência a transmitir às gerações futuras, sendo o povo a influenciar a língua. Já no segundo plano, a língua é o meio mais seguro, talvez o único, de descoberta e de ordenamento do real, ela é o quadro e a matriz do pensamento coletivo e condiciona a experiência dos que a falam. Enquanto que para o último, a língua simultaneamente manifesta e molda o espírito do povo, influenciando este a sua própria língua, mas, também, recebendo influência dela.
No entender de Martins (2018), muitos professores em Angola concordam que o ensino tradicional da gramática parece ser uma concepção que não resulta, visto que aos alunos são ensinadas as regras, mas a própria realidade comunicativa contradiz o que os professores ensinam. Não queremos com isto retirar o conceito e a importância que a gramática normativa possui, entendemos que a gramática normativa deve estar presente como auxiliadora do processo e não visto como o único recurso.
A reflexão anterior demonstra a necessidade de se adequar o ensino da Língua Portuguesa a um ensino baseado em práticas discursivas que privilegie a leitura, a oralidade e a escrita, para possibilitar ao aluno a aprendizagem de uma gramática em uso, que amplie a sua visão discursiva e reflicta sobre o funcionamento da língua em vários contextos. Sequencialmente, a nível metodológico e com pendor na postura docente, assume-se relevante frisarmos que, para uma prática producente do processo de ensino-aprendizagem, a Sociolinguística faz-nos compreender que é preponderante incidirmos as nossas atenções sobre o falante (aluno) como membro de uma comunidade, como indivíduo cuja linguagem pode caraterizar a origem étnica, a profissão, o seu nível de vida e a integração numa classe (cf. Fabre,1979: 105 apud Martins, 2018).
A Sociolinguística é um contributo valioso no ensino-aprendizagem da língua, relaciona o conhecimento do binómio língua e cultura, bem como a sua legitimação; sendo que, diante do aluno e na actividade docente, o professor não deve deixar de os considerar, visto que a sua relação com a comunidade é intrínseca, fornecendo dados sobre a origem, a história e o modo de vida do aprendente. Face a esta realidade, o ensino de língua não deve estar desassociado da Sociolingística; e os professores, políticos e a sociedade têm de possuir o domínio desta relação, na medida em que "uma língua mais do que ser utilizada como instrumento ao serviço de uma determinada comunidade humana, acaba, ela própria, por utilizar os membros dessa mesma comunidade, conforme aponta (Zau, 2011: 17, citado por Martins, 2018).
5. Considerações finais
No contexto de Angola, o ensino da Língua Portuguesa deve reflectir a situação sociolinguística do país e basear-se nos conhecimentos da Linguística e da Sociolinguística. É preciso repensar o perfil do professor que a realidade social necessita, bem como a sua disposição em aprender ensinando, com realce à sua visão em relação ao processo de ensino-aprendizagem de línguas, que seja inclusivo e democrático, com professores inclusivos. A nossa realidade evidencia a crescente necessidade de se ter um professor que promova uma aprendizagem capaz de envolver todos os alunos, que esteja disponível para reflectir sobre sua prática pedagógica e submeter-se a processos críticos de reflexão sobre elas, para que contribuam no aperfeiçoamento do ensino de línguas e no seu desenvolvimento.
6. Bibliografia
Fernando, M. (2023). Línguas locais de Angola no Contexto de globalização. Revista da Academia Angolana de letras n.º 2 –Dezembro 2023. ISSN:3007-0333: p. 133.
Martins, J. (2018). A Sociolinguística e o Ensino do Português em Angola: Concepções e Práticas Docentes na Cidade do Lubango. Dissertação Apresentada à Universidade da Beira Interior para Obtenção do Grau de Mestre em Estudos Lusófonos: 2.º Ciclos de Estudos.
Ndombele, E. D. (2017). Gestão de multilinguismo em Angola: reflexão sobre o ensino de línguas angolanas de origem bantu na província do Uíge. Verbum (ISSN 2316-3267), v, 6, n. 1 (Dossiê Lusofonia), pp. 33-44.
Paro, V. H. (2016). Gestão Democrática da Escola Pública. 4.ª Ed. São Paulo: Cortez Editora.
Rodrigues, N. C. & Hentz, M. I. B. (2011). Desafios da Formação de Professores de Língua Portuguesa: A Relação entre os Saberes Disciplinares e os Saberes da Prática. Fórum Linguístico, Florianópolis, v.8, n.1, p. 55-73, jan/jun.... DOI:5007/1984-8412.2011.v8n1p55.
Silva, C. C. Ricon, N. M & Silva, P. M. L. (Org). Ensino de Línguas: práticas em sala de aula, desafios para o século XXI. Mares editores: Rio de Janeiro.

