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Terça-feira, 30 de junho de 2026

Opinião

Multimodalidade e a “Iconização” da Escrita na Comunicação Digital Angolana

Por Enoque Kayombo30 de junho de 202626 visualizações
Multimodalidade e a “Iconização” da Escrita na Comunicação Digital Angolana

Resumo

O presente estudo analisa os fenómenos da multimodalidade e da iconização da escrita na comunicação digital angolana, com enfoque no uso de emojis e stickers como recursos de produção de sentido. A investigação adoptou uma abordagem metodológica mista, combinando questionários aplicados a 100 utilizadores residentes em Angola e análise temática de respostas abertas. Os resultados demonstram que os recursos icónicos deixaram de desempenhar uma função meramente decorativa, passando a integrar a estrutura discursiva das interacções digitais. Verificou-se que os stickers, particularmente aqueles inspirados em figuras públicas, memes e situações do quotidiano angolano, funcionam como marcadores identitários e culturais. Contudo, observou-se também a existência de tensões entre inovação linguística e normatividade, sobretudo entre utilizadores que associam a iconização a uma possível degradação da escrita. Conclui-se que a comunicação digital em Angola se caracteriza por uma crescente complexificação multimodal, onde coexistem criatividade expressiva, identidade cultural e preocupações normativas.

Palavras-chave: Multimodalidade; Iconização da escrita; Comunicação digital; Sociolinguística; Identidade angolana.

1. Introdução

A expansão das tecnologias digitais e das plataformas de comunicação instantânea transformou profundamente as práticas de escrita. Actualmente, a produção de sentido já não depende exclusivamente do código verbal, incorporando elementos visuais como emojis, stickers, imagens e memes. Este fenómeno enquadra-se no conceito de multimodalidade, entendido como a articulação de diferentes modos semióticos na construção da comunicação (Kress & van Leeuwen, 2006).

Em Angola, onde a comunicação social é historicamente marcada pela oralidade, pela expressividade e pelo humor, a utilização de recursos visuais adquiriu uma relevância particular. Os emojis e stickers passaram a desempenhar funções semelhantes às expressões faciais, gestos e entoações da comunicação presencial, permitindo aos utilizadores reproduzir no espaço digital aspectos fundamentais da interacção oral.

Perante esta realidade, o presente estudo procura compreender de que forma a multimodalidade e a iconização da escrita reconfiguram a comunicação digital angolana, influenciando a expressividade, a clareza e a construção de identidades culturais no ambiente virtual.

2. Fundamentação Teórica

A multimodalidade constitui uma das características centrais da comunicação contemporânea. Segundo Kress e van Leeuwen (2006), a produção de significado resulta da integração de múltiplos recursos semióticos, incluindo linguagem verbal, imagens e elementos visuais. Nesta perspectiva, a escrita digital deixa de ser exclusivamente textual para se tornar um espaço híbrido de construção de sentido.

A compreensão dos emojis e stickers pode ser aprofundada através da teoria semiótica de Charles Sanders Peirce. Para o autor, os signos podem assumir natureza icónica, simbólica ou indexical. Os emojis são predominantemente ícones, uma vez que representam visualmente emoções, objectos ou acções. No entanto, o seu significado depende frequentemente do contexto comunicativo, adquirindo também características indexicais (Peirce, 1931–1958).

Do ponto de vista sociolinguístico, a utilização destes recursos pode ser interpretada como uma manifestação da variação linguística. Labov (2008) defende que a mudança linguística resulta das necessidades comunicativas dos falantes e das transformações sociais. Neste contexto, a iconização da escrita não representa necessariamente uma degradação da língua, mas uma adaptação às exigências da comunicação digital.

A partir destas perspectivas, a iconização pode ser entendida como um processo de expansão funcional da escrita, no qual elementos visuais passam a desempenhar funções discursivas anteriormente atribuídas exclusivamente às palavras.

3. Metodologia

A investigação adoptou uma abordagem mista, combinando métodos quantitativos e qualitativos. Foram aplicados questionários estruturados, através da plataforma Google Forms, a 100 participantes com idades compreendidas entre os 18 e os 45 anos.

Os participantes foram seleccionados por conveniência e contactados por intermédio de plataformas digitais como WhatsApp, Facebook e correio electrónico. Paralelamente, procedeu-se à análise temática das respostas abertas, permitindo identificar atitudes linguísticas, percepções normativas e práticas comunicativas associadas ao uso de emojis e stickers.

A análise concentrou-se em três dimensões fundamentais: frequência de utilização, funções pragmáticas e percepções sobre os efeitos destes recursos na escrita.

4. Resultados e Discussão

Os resultados demonstram que a iconização da escrita constitui uma prática amplamente difundida entre os utilizadores angolanos. Cerca de 82% dos participantes afirmaram utilizar emojis regularmente nas suas interacções digitais, enquanto 67% indicaram recorrer frequentemente à substituição de palavras ou expressões por pictogramas.

A principal motivação identificada foi a economia linguística. Os participantes consideram que os emojis permitem comunicar emoções e intenções de forma mais rápida e eficiente, reduzindo o esforço de produção textual.

No entanto, verificou-se também que 54% dos inquiridos já experienciaram situações de ambiguidade ou mal-entendidos provocados pela interpretação divergente dos símbolos utilizados. Este dado confirma que o significado dos recursos visuais depende fortemente do contexto e da partilha de conhecimentos entre os interlocutores.

No que se refere aos stickers, os resultados revelam uma forte dimensão identitária. Ao contrário dos emojis, geralmente padronizados a nível global, os stickers utilizados pelos angolanos incorporam frequentemente referências culturais locais, incluindo figuras públicas, expressões populares, cenas humorísticas e memes nacionais.

Esta prática permite aos utilizadores adaptar tecnologias globais às suas realidades socioculturais específicas, transformando os stickers em instrumentos de afirmação identitária e pertença colectiva.

Por outro lado, os dados qualitativos evidenciam a existência de uma tensão entre inovação e normatividade. Diversos participantes manifestaram preocupação relativamente ao impacto da iconização na competência escrita, associando o uso excessivo de imagens à perda de rigor linguístico e ao empobrecimento da capacidade de redacção.

Estas atitudes reflectem um conflito sociolinguístico entre forças inovadoras, que valorizam a criatividade e a eficácia comunicativa, e perspectivas conservadoras que privilegiam a norma-padrão como modelo de prestígio e legitimidade.

5. Conclusão

O estudo permitiu verificar que a multimodalidade e a iconização da escrita constituem elementos centrais da comunicação digital angolana contemporânea. Os emojis e stickers deixaram de ser simples complementos visuais para assumirem funções discursivas relevantes na construção do significado.

Os resultados mostram que estes recursos favorecem a expressividade, a rapidez comunicativa e a afirmação identitária, particularmente através dos stickers culturalmente contextualizados. Contudo, a sua utilização também gera preocupações relacionadas com a clareza semântica e a preservação das normas tradicionais da escrita.

Conclui-se que a comunicação digital em Angola se caracteriza por uma coexistência entre inovação semiótica e conservadorismo linguístico. Neste cenário, a escrita digital emerge como um espaço de negociação permanente entre criatividade, identidade cultural e normatividade.

Futuras investigações poderão aprofundar a relação entre a iconização digital e as línguas nacionais angolanas, analisando de que forma emojis, stickers e memes contribuem para a preservação, transformação ou hibridização do património linguístico bantu no ambiente digital.

Referências

Bagno, M. (2007). Nada na língua é por acaso: Por uma pedagogia da variação linguística. Parábola Editorial.

Kress, G., & van Leeuwen, T. (2006). Reading Images: The Grammar of Visual Design (2.ª ed.). Routledge.

Labov, W. (2008). Padrões Sociolinguísticos. Parábola Editorial.

Peirce, C. S. (1931–1958). Collected Papers of Charles Sanders Peirce (Vols. 1–8). Harvard University Press.

 

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