O Dia dos Finados, celebrado a 2 de Novembro, é feriado nacional, dedicado à memória, oração e homenagem aos falecidos. Em alusão à data, o jornal ‘O Estandarte’ realizou um périplo por alguns cemitérios de Luanda, para ouvir as pessoas que foram visitar as campas dos seus entes queridos, vendedores de flores e prestadores de serviços de limpeza.
A reportagem começou pelo Cemitério do Alto das Cruzes, situado no Cruzeiro, município das Ingombotas, por ser um dos mais antigos da capital do país, construído e inaugurado em 1859.
Acompanhados de flores e alguns meios para fazer a limpeza das campas, alguns ainda choravam pelos seus entes queridos, já outros procuravam apenas lembrar-se de como eram em termos de comportamento e dos principais convívios.
O primeiro a falar ao ‘O Estandarte’ foi Armindo da Cruz, pai de uma jovem estudante do curso de Fisioterapia na Universidade Metodista de Angola. Foi ver a campa dos pais, Neto Pinto e Susana Pinto.
Lembra que ambos foram vítimas de assassinato quando viajavam de Luanda para Malanje, em 1992. Segundo Armindo, naquele dia, não só morreram os seus pais, mas também dois tios que se encontravam no mesmo carro, nomeadamente Joaquim Pinto e Júlio Pinto, bem como outro familiar cujo nome não vem à memória.
“Para além deles, foram ainda assassinados dois irmãos do meu pai e um outro familiar que com eles viajavam. Tentaram assaltar o carro, e um dos meus tios, na altura armado, visto que era militar, ofereceu resistência, mas, infelizmente, os assaltantes eram tantos e acabaram por almejá-los”, recorda.
“Lembro-me de que, no dia do óbito, eu saía da escola, encontrei muita gente em casa, perguntei à minha irmã o que se passava, ela respondeu-me que o meu pai havia falecido, mas escondeu-me o caso da mãe, dizendo-me apenas que estava no hospital”, acrescenta.
Já o irmão cassula de Armindo, Nelson Neto, relembra que tinha apenas nove anos quando a mãe faleceu e, na véspera, estava a sair da escola”.
“Eu estava a sair da escola, estudava a 3.ª classe. Quando cheguei a casa, encontrei muita gente a chorar. Afinal, choravam pela morte dos meus pais. Foi muito triste”, expressa-se emocionalmente.
Os dois irmãos assistiram à missa em homenagem aos finados, realizada no Alto das Cruzes, e limparam a campa dos pais. “Assistimos à missa, que estava organizada, correu bem. Nós é que temos feito a limpeza da campa, não pagamos ninguém”, afirma.
Ainda no Alto das Cruzes, este jornal ouviu Imaculada do Carmo, licenciada em Serviço Social pela Universidade Católica de Angola.
De acordo com Imaculada, foi ao cemitério para ver a campa de três entes queridos, dos quais a mãe e duas sobrinhas, mas falou somente da filha da irmã, de nome Neusa, falecida de cancro da mama aos 29 anos. Elogia a forma como têm feito a limpeza das três capas.
Já no Cemitério da Santana, também na cidade capital, mas numa zona menos urbanizada, encontrámos a jovem Jéssica Domingos, que foi visitar a campa da mãe, Paula Domingos, falecida em 2019, vítima de doença.
Jéssica fala que ainda se lembra de quando a mãe a punha no colo para dormir e de quando lhes servia o lanche. “Ela primava muito pelo descanso, lanche e era muito conservadora”.
Mais para frente, sentada numa campa de mármore, estava Elizabeth da Cruz, que acabava de ter contacto com a sepultura do pai, que perdeu a vida em 2019, devido a um cancro maligno no pulmão.
Beth, como também é chamada, é a primeira filha do malogrado Virgílio Eliote e relembra que o seu pai era uma pessoa muito conservadora e justa para com as pessoas.
Já Adriano João, natural de Luanda, visitou a campa do seu irmão gémeo, Avelino João, que partiu para a eternidade nos anos 70. O entrevistado ainda tem na memória a zona do Cemitério da Santana onde o irmão foi sepultado, mas não tem algo para a recordação, uma vez que não construíram uma campa, só fizeram para os avós e os tios. No seu entender, o 2 de Novembro é um dia de reflexão, mas, a priori, tornou-se cultura desde tenra idade.
Embora distante do centro da cidade, outro cemitério que recebeu muitos visitantes é o do Benfica, situado na zona com o mesmo nome, onde a nossa reportagem encontrou a senhora Graça Cumba, vendedora de materiais de construção no Mayé Mayé, bairro pertencente à província do Icolo e Bengo.
Dona Graça, como é chamada pelos seus clientes e por alguns amigos no mercado, esteve no cemitério para ver a campa do irmão mais velho, falecido há três meses no Hospital Heróis de Kifangondo, no Sequele.
A vendedora memora que o seu irmão era uma pessoa de paz, muito conselheiro e humano.
“Ele deixou-nos muita tristeza. Não tem sido fácil para nós, visto que era o nosso conselheiro”, lamenta.
O que dizem os fiéis sobre a data
Mateus Francisco, pastor na Igreja Metodista Unida, colocado no Departamento de Educação e Ensino, decano da Faculdade de Teologia da UMA e doutor em Estudos da Religião e Teologia, faz saber que, para os metodistas e evangélicos, o Dia dos Finados não tem relevância do ponto de vista religioso, porque a morte não é o fim, há uma promessa de vida eterna.
“O Dia dos Finados é um aspecto histórico, pois que nos lembramos dos feitos dos irmãos que já se foram. Estamos vivos para servir. Quando temos o Dia dos Finados, a gente pára para lembrar que o tempo é urgente. Ficámos porque temos trabalho a fazer”, esclarece.
O também académico acrescenta que “não podemos dizer se orar pelos mortos é certo ou errado, porque, dentro da religião, temos vários costumes, mas o que nos une são os 10 Mandamentos e o Credo.
Por sua vez, o padre Adelino Moma, natural do Huambo, licenciado e mestre em Teologia e Educação Moral, declara ser um dia de reflexão, é um voltar-se para nós mesmos. Para o prelado, esta data significa que o que fizemos hoje temos de o fazer bem, visto que estamos na Terra de passagem.
Quanto à missa em memória dos mortos, justifica com o livro de Macabeus, explicando que essa escritura recomenda a oração pelos que já partiram, para honrar os seus nomes e os seus feitos. “Com o Novo Testamento, entendemos que os que morreram com Cristo, com Ele ressuscitarão. Mesmo os que caminham bem sem cristianismo, mas que estão muito perto das boas acções, serão salvos. Deus salva pelo amor, e o seu amor é universal”, defende.
Eugénia Tanda, da Igreja do Reino de Deus (ex-Universal), considera a data um dia normal, lembrando que as pessoas vão, mas a morte não é o fim de tudo. “Estamos aqui de passagem”, apela Tandu, citando os livros de Mateus (11: 28) e Apocalipse (21: 4).
Venda de flores e limpeza de campas entre os serviços que mais lucram com a data
Enquanto choram ou ficam nostálgicos, outros aproveitam o feriado nacional para vender flores e uns para cobrar pelos serviços de limpeza das campas.
Felícia Duarte, vendedora de flores ao pé do Cemitério Alto das Cruzes, acha a venda razoável, mas lamenta o facto de ter sido corrida pelos fiscais. “Os fiscais estão a correr connosco, não nos deixam chegar até ao Cemitério”, desabafa.
Faz saber que os preços das flores variam de mil a 50 mil kwanzas.
Meury da Silva afirma que a venda está a correr bem, mas, acrescenta, no princípio do dia estava melhor, sem sobressaltos.
Ângela Fernandes revela à reportagem do jornal ‘O Estandarte’ ser vendedora de flores há um ano e, com o trabalho, tem conseguido sustentar a família.
Por sua vez, Eugénio Pedro, de 18 anos, encontrado no Santana, diz que presta os serviços de limpeza de campa há pelo menos cinco meses e, com isso, consegue levar, no mínimo, cinco mil kwanzas por dia. “Estou aqui à segunda, à sexta e ao sábado”, informa.
Isidro Jamba, morador do Bairro Popular, há dois anos a prestar serviços de limpeza, assume que esse trabalho lhe permite garantir o seu sustento e chega a levar para casa até 15 mil kwanzas por dia.





